Zkaya, só para brancos e de elite?

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Nesse texto vou responder uma das perguntas mais recorrentes que recebemos na Zkaya, e não à toa, pois ela vem de um pensamento comum da estrutura racializada que vou tentar desconstruir nos próximos parágrafos.  Muitas vezes sou questionada sobre os preços dos produtos da Zkaya, já chegaram a dizer que os nossos produtos eram só para brancos e de elite.

Quando li esse comentário, me perguntei de que elite nós estamos falando? Porque o produto com o maior preço que temos hoje é de R$219,90 sendo dois modelos, um de bolsa e outro de calçado, e temos produtos a partir de R$10,00. 

Também me faço a pergunta: somos comparados a quem?

Se somos comparados com marcas que produzem milhares de uma mesma peça, e compram tecidos e produzem em grandes volumes, e muitas vezes na China com trabalho análogo ao escravo; ou se a comparação é feita com marcas autorais, com estampas exclusivas, e que produzem em pequenas quantidades e que buscam pagar justamente as pessoas que fazem parte dessa produção? 

Porque existe uma diferença gigantesca de forma e custos de produção de um para o outro. 

Já comentaram que a população negra é pobre e periférica e que não consegue comprar nossos produtos, e sobre isso eu quero dizer que sim, quando se fala de números a população negra é a que recebe os menores salários, têm menos acesso à educação, saúde, e trabalho.  E isso também se reflete no empreendedorismo, somos mais da metade das empresas do Brasil, somos o maior número de CNPJs, geralmente MEI (Micro Empreendedor individual) e que muitas vezes não contrata, e que não ganham nem um salário mínimo, são os eletricistas, costureiros, cabeleireiros, diaristas e por aí vai.  

Preciso dizer também que apesar desses números negativos como população negra não somos uma coisa só, somos muitos e diversos, e também uma população que começou a integrar a classe média brasileira, um aumento de 38% da população para 53% no total de mais de 100 milhões de pessoas nos últimos 15 anos. E que representa um total de mais de R$350 bilhões em rendimentos, segundo a pesquisa da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República (2016).

Outra pergunta que faço é: como quebrar esse ciclo de números negativos para a população negra? 

Pensando na minha trajetória como empreendedora negra, só foi possível crescer em gama de produtos e contratação de pessoas, quando fiz os custos reais, quando coloquei não só os custos do produto, mas o meu custo sentada na máquina costurando, nas redes sociais, fechando caixa, indo nos correios, fornecedores e etc, insumos comprados que ainda não tinham sido produzidos, e produtos prontos esperando ser vendidos,  enfim, o custo real, aí pude contratar uma costureira, pagar justamente pelo trabalho dela, e hoje somos 11 pessoas que tem a renda total ou parcial na Zkaya. 

Infelizmente ainda existe uma visão de que produtos feitos por pessoas negras tem que ser baratos, mas todo produto barato tem custo, e normalmente esse custo está associado à exploração de mão de obra, e geralmente mão de obra negras, e aí a gente fica em um ciclo vicioso, onde pessoas negras ganham menos e precisam comprar do mais barato, que só consegue fazer mais barato porque explora mãos negras e por aí vai. 

Tenho consciência de que não serão TODAS as pessoas negras que poderão comprar Zkaya, contudo a maioria dos nossos clientes são pessoas negras, embora a gente venda para pessoas brancas, e a Zkaya jamais tem a intenção limitar o uso exclusivo a pessoas negras, a gente sabe que o motivo de compra para pessoas negras é diferente, porém pessoas brancas também tem seu papel para a mudança da estrutura que se apresenta, mas essa é uma outra conversa. 

Quando a gente estava estudando e entendendo um recorte do nosso público feminino, fiz uma validação entrevistando clientes, uma conversa de meia hora, escolhemos as que mais tinham recorrência de compra e aprendi muito ouvindo essas mulheres, e percebi o quanto as ações afirmativas impactaram financeiramente a vida de muitas pessoas negras. 

Não que eu não queira que a Zkaya alcance todas as pessoas negras, mas acredito que o caminho, não é tornar os preços mais acessíveis, pois isso causaria exploração de mão de obra, e o impedimento de crescimento da marca, mas sim oportunizar que outras pessoas negras tenham acesso a melhores condições de trabalho, e renda. 

Hoje não temos apenas fornecedores negros, porém dentro do ateliê somos apenas pessoas negras, e é uma prioridade pra mim como empreendedora, e minha intenção aqui, com eles é possibilitar que eles tenham conhecimento e que cresçam como profissionais junto com o crescimento da Zkaya.  Hoje não tenho condições de pagar cursos de formação, mas disponibilizo meia hora diária para minhas funcionárias CLT,  para cursos online, e a única condição é que o curso faça sentido para a Zkaya. 

Pra mim essa é uma ação real, dar emprego e pagar justamente para que essas mesmas pessoas negras possam fortalecer outros empreendedores negros e assim a gente quebrar uma corrente que ainda nos aprisiona. 

Marcas como Adidas, Nike, Apple, muitas vezes tem seus produtos fabricados por mãos negras que não conseguem comprar sem que haja o parcelamento em diversas vezes, mas que ainda assim fazem o consumo, enriquecendo cada vez mais quem já está rico. 

Enquanto nós, empreendedores negros somos questionados o tempo inteiro.

Entendo que é muito complexo pensar em consumo consciente quando se está lutando pela sobrevivência, mas entendo que quem pode escolher de quem comprar tem que questionar quantas vidas, e com qual qualidade de vida custa o que a gente veste e usa, e assim oportunizar que o ciclo da exploração se encerre, somente assim teremos um mundo minimamente mais igualitário. 

É um assunto que ainda cabe muitos outros diálogos, mas me conta o que você achou dessa reflexão, e se você consegue fazer um consumo consciente das suas compras. 

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4 respostas

  1. Olá! Assumo que já torci o nariz para os preços dos produtos da zkaya, mas acreditava que fazia sentido por serem tão bem feitinhos e lindos. Depois de ler esse texto eu estou refletindo como não é fácil ser empreendedor e quantas dificuldades além de reclamações você tem que lhe dar. Obrigada por essa satisfação e por abrir os olhos do nosso povo para para o black Money.bjus

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