Já se padronizou hoje?

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Oiee, como vocês estão? Tava sumidinha, e um dos motivos foi porque quando comecei a escrever esse texto eu comecei a falar sobre estilos “fora e dentro dos padrões”, mas ficou tudo muito confuso, e talvez seja porque minha real inquietação era falar sobre o papel da moda no branqueamento, na padronização imposta por ela, e daí pergunto para você, já se padronizou alguma vez?

Se a resposta for não, eu fico muito contente, que bom para você, mas essa não é a realidade de muitos. Agora se você já, ou ainda se padroniza, não vai se culpar também hein, existem inúmeras razões para isso. Eu também não tenho como objetivo que você compreenda aqui as razões, até porque… Não sei se eu sei hihi, mas quero que a gente reflita juntes. Bom, primeiramente, acredito que seja compreensivo que pessoas negras busquem a padronização em direção ao branco, afinal quanto maior essa padronização, “quanto menos preto você parecer”, menos discriminação você sofrerá, menos racismo. 

Nós padronizamos não por luxo, mas por necessidades básicas, como dentre muitas outras: Não sermos perseguidos dentro de lojas; As pessoas não acelerarem os passos na rua se estivermos atrás delas, ou não atravessarem né; Conseguirmos empregos; Não tomar batida policial ao caminho do trabalho; Ahhh, não ser golpeado e morto por um segurança ao estar fazendo compras dentro de uma das maiores redes de supermercados do mundo também me parece um boa razão.

Por que digo isso? Pra reforçar mais uma vez que você não deve se culpar e que precisamos falar sobre isso, vamos falar sobre isso? Então tá, eu começo, valendo!

Eu já me embranqueci, já me padronizei, e foi isso inclusive que me colocou dentro de departamento de criação na indústria da moda (dominante), se não tivesse me embranquecido, se não tivesse me adequado aos padrões de moda, muito pouco provável eu teria conseguido essa posição. E quando entrei, fui percebendo na prática, que pessoas que ascendiam dentro das confecções de moda pertenciam a uma determinada estética, a padrões estéticos na verdade né, e foi o que fiz, porque queria ascender também, quem não quer né? Você quer? Eu quero! Pera lá…. quem quer ascender socialmente põe o dedo aqui o/ (podia ser assim né).

Tá, voltando! Quando digo que me padronizei dentro da indústria da moda, também não foi assim “buuuum!” E do nada estava padronizada né.

A padronização, assim como  o branqueamento foi um processo bastante longo e árduo que me empurram goela abaixo desde que tive o primeiro contato fora no núcleo familiar. O que estou dizendo aqui é que nesse momento na vida adulta profissional, foi um momento intenso de branqueamento/padronização, um divisor de águas, acredito que tenha tido outros momentos chave também, como o primeiro contato escolar, a entrada na universidade (curso de moda), mas o da indústria da moda, sem dúvidas alguma, foi o mais intenso, até porque esse, pela primeira vez, também me envolveu em padronização de gênero, e por isso que às vezes uso nesse texto branqueamento e as vezes padronização.

Não sei para vocês, mas para mim é bizarro pensar que na indústria da moda brasileira, um espaço majoritariamente feminino, o feminino ter tão pouco espaço, os maiores estilistas e diretores criativos brasileiros sempre são homens, mas também não são quaisquer homens, por mais que a maioria sejam gays, são gays viris, eu não estou falando de trejeitos, estou falando de roupa, camisas sociais, roupas pretas, e blazers que certamente não combinavam com, moicanos verde neon, os sapatos de salto, e as leggings neons e metálicas que eu tanto gostava, essas roupas não me davam respeito dentro da indústria, eu era a estilosa, a divertida, e engraçada (afinal a norma também impõe que sejamos os pícaros das histórias né), ou às vezes chamada também de conceitual só para não ser chamada de estranha.

E foi assim que fui entendendo que a ordem estética dentro da indústria da moda era branca e viril, assim fui me apropriando disso, me protegendo e ascendendo, um processo que levou em torno de 10 anos. Contudo ainda sim, mesmo padronizada, que envolve muita coisa, mas destaco os cabelos alisados e as roupas associadas socialmente ao masculino, ainda sim eu não alcançava alguns lugares, nunca tinha o respeito, a autonomia, a autoridade, muito menos a remuneração de outros designers de moda brancos, tão pouco era apresentada como designer da marca, sempre fui “o menino que ajuda no estilo” (estilo é o nome dado para o departamento de criação dentro de algumas fábricas de roupas).

Mas calma que tem mais, cê acha que dá pra piorar? Sempre dá né… Outra coisa que fui percebendo dentro da indústria da moda é que enquanto eu “ascendia” pela minha padronização, as minhas ficavam para trás, as pretas (que não tinham se padronizado como eu) estavam na produção, na costura, corte, almoxarifado. Ou seja né, eu tinha mais “poder” que as minhas, mas não tinha o poder dos brancos da criação, Vocês estão entendendo o que está acontecendo aqui? O que acontece aqui é o mesmo que acontece desde a colonização, onde algumas pessoas pretas são enganadas de que são “menos pretas” que outras e que assim tem mais poder que os outros, o que acarreta em conflitos entre nós mesmos e reforça as estruturas de poder deles.

Meu exemplo foi dentro da indústria da moda, mas poderia ser em qualquer outra indústria, trabalho, ou instituição que seja, visto que o racismo é estrutural, mas porque “gosto” desse exemplo então? “Gosto” dele porque ele é, debochadamente, pelo sistema de moda e dentro da indústria da moda. O que quero dizer com isso? A moda pode ser entendida de várias maneiras, que não vem ao caso explicar todas agora, mas uma delas, que é a minha preocupação, é quanto a um fenômeno intrinsecamente moderno, isso porque, sendo a modernidade um período violento de apagamentos de saberes, conhecimentos, e culturas de muitos povos em razão de uma unificação, de uma universalidade pautada em direção da estética do homem branco europeu, seria a moda então a ferramenta utilizada para essa universalidade no vestir, não estou dizendo que ela seja somente isso,  mas que ela é também isso.  

Então, eu acredito que quando concordamos com a moda, com essa padronização da moda, nós reafirmamos uma série de discursos que só nos prejudicam, seja pelo fato de nos enganarmos que estamos ascendendo, ou seja por só piorar a situação daquele que ao contrário de você não conseguiu se padronizar o bastante. No entanto, tem mais um probleminha nisso tudo. 

A moda muito esperta que é, também percebeu que, hoje, existe uma mudança de paradigma onde identidades que por muito tempo foram invisibilizadas, estão sendo pautadas, o que ela faz então? Ela se apropria dessas identidades, desses grupos e esvaziam todos os sentidos e seus significados, e para além disso, ela ( nesse sentido que estamos falando, a moda dominante) não rompe com nada, ela apenas cria mais um nicho de mercado. Por isso que eu acredito, que além de buscar romper os padrões estéticos, a gente deve questionar se devemos recorrer a essas marcas, e talvez se perguntar antes de comprar: essa marca tem pessoas que me representam na criação? Diretoria? Essa marca usa esses elementos como o verdadeiro estilo, identidade da marca, ou ela se apropria disso em apenas algumas peças ou coleções? Quanto seus idealizadores estão envolvidos com a causa?

Bom, essa foi a minha experiência com padronização e o que eu penso a respeito da moda no meio do babado, mas agora eu quero saber de você, Já se padronizou? O que te fez mudar? Se ainda se padroniza, qual a sua maior dificuldade para romper?

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5 respostas

  1. Amei o texto!! 👏🏾👏🏾👏🏾É uma boa reflexão, penso a nesna coisa Em relação a apropriação de algumas pessoas e marcas.
    Sempre fui esquisita kkk, Deus me fez única.
    O legal é ser diferente.

  2. Quanta evolução vejo em ti… daquele jovem verde neon da escola até aqui foram muitas evoluções… parabéns pelo texto amigo… voaaa

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